Entreposto - Ceagesp, Ceasa - Desperdício, de quem é a culpa?
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Desperdício, de quem é a culpa?

Cerca de 35% da produção nacional de frutas e hortaliças é jogada fora

Os descartes de frutas e hortaliças motivados por falhas na infraestrutura e manuseio inadequado dos produtos geram enormes prejuízos econômicos e socioambientais. De acordo com o estudo “Desperdício de alimentos no Brasil: um desafio político e social a ser vencido”, do pesquisador Antônio Gomes Soares, cerca de 35% da produção nacional desses produtos é jogada fora.

Na avaliação do especialista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), todo esse montante desperdiçado, além de desequilibrar a cadeia produtiva, impacta na qualidade do produto que chega à mesa do consumidor. Os dados da pesquisa mostram que metade das perdas de frutas e hortaliças ocorre no manuseio e no transporte dos produtos, mas há grande desperdício nas Centrais de Abastecimento (Ceasas), nos supermercados e também na própria lavoura.

“No campo, observamos muitas práticas inadequadas. Não se limpa o fruto direito e os que não estão sadios são jogados na terra, o que contamina outros pés”, exemplifica. Embora o estudo tenha sido concluído em 2000, o cenário verificado naquela época quase não se alterou nos últimos 15 anos. “Em alguns lugares, a qualidade do produto está melhor, mas, em termos de perda, pouca coisa mudou, porque muitas vezes não se usa embalagem adequada e os frutos perdem qualidade durante o transporte ou devido ao calor excessivo”, observa.

A pesquisadora Milza Moreira Lana, da Embrapa Hortaliças, explica que o desperdício é agravado por diversos fatores. “Nós não temos uma cadeia do frio consolidada no País, o que contribui para que o produto fresco estrague mais facilmente. Além disso, as estruturas de comercialização fazem com que esse produto demore para chegar até o consumidor final”, afirma. Outro grande problema, segundo ela, é que a produção de frutas e hortaliças demanda insumos raros de alto valor financeiro, como a água e o adubo.

“A grande questão é que produzimos alimentos que não são consumidos pela população”, salienta. É por esse motivo que a Embrapa dedica parte de suas ações à busca de soluções tecnológicas que diminuam os impactos oriundos desperdício. Além disso, a empresa promove campanhas de acesso à informação, tanto à população em geral como aos produtores. Segundo a especialista, os projetos elaborados visam melhorar e diminuir os efeitos negativos em cada etapa da cadeia produtiva, passando pela produção, manuseio, processamento, mercado e distribuição, até chegar à mesa do consumidor.

Desafios e ações

Acabar com desperdício exige uma solução complexa, que incide, principalmente, em uma ação integrada com todos os atores da cadeia produtiva. Em outras palavras, é preciso haver cooperação entre todos os elos, do produtor ao consumidor. Segundo o pesquisador Antônio Gomes, existe uma série de procedimentos que, se adotados, podem contribuir paraa redução das elevadas taxas de perdas, tais como melhoria nos tratamentos da pré e pós-colheita dos frutos, padronização das dimensões das embalagens, melhoria nos meios de transporte e armazenamento de produtos e melhor integração entre varejistas, atacadistas e produtores. Ele também diz que é preciso melhorar o treinamento das pessoas que lidam com as frutas e hortaliças, tanto no campo quanto nos centros de distribuição.

“A mudança logística agiliza informações sobre a qualidade do produto e permite intervenções de ajuste mais rápidas e precisas”, destaca, lembrando que o fim do desperdício de frutas e hortaliças geraria impactos positivos no curto prazo para o País. “Podemos citar diversos benefícios, como a melhor remuneração ao produtor rural, maior oferta de alimentos saudáveis, diminuição de custos operacionais, maior estabilização de preços e diminuição do lixo jogado no meio ambiente”, elenca o pesquisador.

Uma das mais novas medidas para reduzir o desperdício no País está sendo capitaneada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que pretende estimular o consumo das frutas e hortaliças sem valor comercial por terem se desenvolvido com pequenas deformidades ou apresentarem lesões, mas que mantêm intacto seu valor nutricional. A ideia já foi implantada, com sucesso, em diversos países europeus. Em Lisboa, por exemplo, um projeto de empreendedorismo social lançado em 2013, chamado Cooperativa Fruta Feia, expandiu-se e atualmente já conta com 480 consumidores associados. Segundo a entidade, a iniciativa já conseguiu evitar o desperdício de 81,1 toneladas de alimentos.

Para a ministra Kátia Abreu, é necessário incentivar os espaços onde produtores possam vender seus frutos “feios” diretamente ao consumidor a preços mais baixos, evitando mandar para o lixo produtos que seriam desprezados caso estivessem nas prateleiras de um mercado convencional. “Queremos mostrar aos consumidores que frutas e hortaliças feias podem chegar à mesa com o mesmo sabor e a preços menores. Não estamos falando de produtos podres ou inadequados para o consumo, mas, sim, daquele que não são perfeitos, mas que todos nós podemos comer normalmente”, reforça.

Todavia, diminuir o grande volume de alimentos desperdiçados diariamente não é tarefa fácil. A maioria das Ceasas está obsoleta e, para piorar, a infraestrutura de transportes, setor em que o modal rodoviário predomina, é precária em grande parte do País. Segundo o ministro Antonio Carlos Rodrigues, a pasta vai manter e ampliar os investimentos que têm sido ferrovias e rodovias. “Nos últimos anos, esses investimentos deram grande melhoria à logística de transporte de cargas do País e ofereceram melhores condições para distribuição da produção nacional. Além de derrubar os custos aos mercados, eles têm diversificado e integrado a malha de transporte brasileira”, diz.

As hidrovias também devem ganhar mais um impulso este ano. A Lei 13.081/15, sancionada em janeiro, tornou obrigatória a construção de eclusas em novas obras de barragens para geração de energia elétrica em via navegável ou com potencial para tal finalidade. A lei permite a concessão dos serviços de exploração das eclusas pelo setor público a empresas privadas, por meio de licitação. “A nova legislação atende a anseios do setor por facilitar o desenvolvimento do transporte hidroviário, como opção econômica aos outros modais”, salienta.

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