Entreposto - Ceagesp, Ceasa - Notícias

E - Há pouco tempo, Portugal sofria uma crise financeira terrível e nos últimos anos, o país vem se recuperando consideravelmente. Na sua concepção, qual foi o modelo aplicado para que outros países, assim como o Brasil, possam aprender a sair dessa situação?

Fernando Carvalho - Independentemente da dimensão da crise, aquela pela qual Portugal e outros países europeus viveram, tem natureza e características bastante distintas da que o Brasil tem vindo a atravessar, pelo que a validade das soluções encontradas e das medidas implementadas deve ser analisada naquele contexto em concreto e dificilmente podem ser exportadas ou replicadas para outras realidades.
Para o caso concreto de Portugal, foram promovidas, desde 2011 uma série de políticas drásticas de correção dos défices e de contenção da despesa pública. Ao mesmo tempo, implementou-se um pacote de reformas alargadas em diversas áreas, desde a justiça, a administração publica, a modernização e simplificação administrativa, as normas trabalhistas, a saúde, a educação, etc, de modo a tornar mais ágil a máquina do Estado e facilitar a vida das empresas e dos cidadãos.
Outro aspecto a salientar que teve (e tem tido) impactos importantes foi a aposta muito forte em medidas de política facilitadoras da captação de investimento estrangeiro e de promoção de exportações (diversificação de mercados e diversificação de produtos). Aliás, o crescimento de Portugal nos últimos anos tem sido baseado principalmente nestas duas componentes (IDE e exportações) e menos no consumo das famílias, o que confere algum grau de sustentabilidade a este crescimento.

E - Aqui no Brasil, o agronegócio foi um dos principais responsáveis pelo PIB fechar o ano em alta. Em Portugal, qual a parcela que este setor contribui para a economia do país?

Fernando Carvalho - O peso do setor agro-alimentar no PIB de Portugal não ultrapassa os 5% (em 2016 foi de 4,4%), contudo tem um importante peso nas nossas exportações. Em 2017, Portugal exportou para o mundo aproximadamente 7 bilhões de euros de produtos agro-alimentares. Os principais produtos agrícolas exportados foram vinho, azeite, peixe e frutas frescas. E os principais destinos das nossas exportações destes produtos foram Espanha (34,2%), Brasil (9,3%), França (8,72%), Angola (6,7%), Itália (6,6%), Reino Unido (4,8%) e Alemanha (3%);

E -Temos um problema muito sério em acordos comerciais com outros países. Talvez, isso impede que muitas das vezes, o Brasil possa crescer em relação à exportação de produtos agrícolas. Pensando nisso, como é a relação comercial entre Portugal e Brasil?

Fernando Carvalho - A relação dos dois países é boa e tem vindo a crescer nos últimos anos, destacando a componente de produtos do setor “agro” que sempre foi e continua a ser bastante importante.
No entanto, mais do que o mercado português, para o Brasil é de enorme importância o mercado europeu na globalidade (cerca de 500 milhões de consumidores) e aqui a principal questão reside na conclusão, o mais cedo quanto possível, das negociações relativas ao acordo UE-Mercosul, onde o dossiê “agro” é enorme importância. Neste contexto, Portugal tem sido, no seio da UE, um forte defensor da conclusão e assinatura deste acordo que, com certeza, será extremamente benéfico para ambas as partes.

E - Quais são os produtos hortícolas que chegam ao Brasil e quais as dificuldades na exportação para cá?

Fernando Carvalho - Essencialmente, trata-se de frutas e, muito particularmente, da “pera Rocha” que aqui é conhecida como “pera portuguesa”. Portugal tem vindo a procurar a exportação de outras frutas (designadamente do limão, de outros cítricos, de nectarinas, etc), mas que se têm confrontado com dificuldades no processo de certificação e registro junto das autoridades competentes brasileiras, dificuldades derivadas de alguma morosidade e complexidade desse processo.

E - Portugal é o maior consumidor de peixe por habitante na EU e o terceiro a nível mundial. O consumo de peixe é (55,6 kg/percapita/ano) é mais do que o dobro do consumo médio na Europa. Enquanto no Brasil, o consumo de pescado chega a ser inferior a 10,6 kg per capita, bem abaixo do recomendado pela OMS. Pensando nesse consumo baixo dos brasileiros, Portugal vê o Brasil como um potencial comprador de pescado português?

Fernando Carvalho - O peixe sempre teve um lugar de destaque na dieta alimentar dos portugueses e o peixe português, de mar de águas frias, é reconhecido internacionalmente como um peixe de grande qualidade.
Em termos de pescado o mais exportado e reconhecido pelos brasileiros é o bacalhau. O Brasil foi, em 2017, o 1º cliente de Portugal tanto de bacalhau congelado como de bacalhau salgado, importando cerca de 27 milhões de euros e de cerca de 14 milhões de euros, respectivamente. Portugal foi, aliás, o único fornecedor do Brasil destes produtos. Mas Portugal também exporta outros peixes para este mercado, como é o caso de cação. O Brasil foi o segundo cliente de cação de Portugal, em 2017, e é o segundo fornecedor de cação do Brasil, atrás do Taiwan.
É claro que existe um potencial de exportação de outros pescados portugueses para este mercado e existem já ações comerciais nesse sentido.

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A Instrução Normativa Conjunta 02 de 07/02/2018 estabelece regras para a rastreabilidade e o detentor do produto como responsável pela segurança e pelo registro da origem e do destino dos produtos vegetais frescos.

O Entreposto acompanhou de perto, um dia de trabalho do gerente de vendas da Frutamina, Eduardo Raymundo

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